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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Liberdade


Não tenho mais reservas alimentares disponíveis e saboreio meu último chocolate derretido com o calor ambiente até o último instante. O prazer, porém, dura pouco, pois o açúcar me dá sede e logo me arrependo de perder minha batalha contra a fome. Relutante, admiro o último gole de água que resta em minha garrafinha de meio litro de água. Quero lutar contra meus impulsos, mas não consigo e esvazio a garrafa, virando-a até a última gota. Logo, terei vontade de urinar, mas não há banheiro algum nas proximidades e não posso nem ao menos me mover. Estou preso. Terei de aguentar até o último instante. Se eu sobreviver ao dia de hoje, começarei a sair de fraldas para evitar possíveis transtornos. Suo feito um porco, muito embora tenha descoberto que porcos não transpiram, suo muito com este calor infernal e sinto que vou perder a consciência. Mas não sou o único. Estou confinado junto a dezenas de desconhecidos que sofrem o mesmo que eu. Para poupar minhas energias, tento dormir um pouco, e consigo descansar até o sono se esgotar, e volto a me incomodar com este ar denso, rarefeito, com cheiro de gente e roupa úmida. Já perdi a noção do tempo há muito tempo preso aqui dentro. Para me distrair, releio Cortazár que comprei anteontem e li durante os percursos dentro de meios de transporte públicos. Termino de ler e sem mais nada para fazer, desembaço o vidro e vejo a chuva lá fora caindo sobre o teto de incontáveis autoimóveis, molhando a fronte de um único aglomerado de feras contraditoriamente concebidas para correr a pelo menos cem quilômetros por hora. Me chama a atenção uma van amarela da Sedex. Pode confiar. Rá, com este trânsito do caralho, tá bom. Olho o relógio e percebo então que já estou há quase duas horas de pé, cozendo em vapor humano, sendo que são apenas quatro quilômetros de distância entre meu ponto de partida e meu ponto de chegada, distância que eu conseguiria cobrir em cerca de cinquenta minutos de caminhada. Isto significa que já estaria lá há mais de uma hora e ainda teria me exercitado e estaria úmido de chuva, não de suor nostro. Puto da vida, saio, depois de me esgueirar pelas microfrestas entre anônimos braços, bundas e mochilas e irritar metade dos passageiros do busão. Ahhh! Enfim, livre! A chuva ácida de São Paulo é deliciosamente refrescante e purificadora. Benzido, inclino a cabeça para cima, respiro fundo, fecho os olhos, abro a boca e os braços. Um bem estar corre por meu corpo junto com a água que me lava e, com um sorriso no rosto, já não me incomodo com as calçadas inundadas e esburacadas, pois ando pelos estreitos corredores de autoimóveis rapidamente, cada vez mais veloz, ultrapassando um jetta, uma bmw, e mais para frente um porsche, e assim vou correndo livre, pisando fundo (nas poças d'água). 


sábado, 29 de agosto de 2009

O Labirinto


Mas como é que eu vim parar aqui?
Porra, de novo, de novo nesse lugar.
Desculpe, devo ter me perdido. O que? Ah, não, não, isso acontece com uma certa frequência, sabe como é né, uma idéia puxa a outra e no final, todas as idéias interessantes ficam em algum lugar que eu já nem me lembro mais.
Mas então, poderia me ajudar? Eu queria achar o caminho de volta. Eu ia escrever alguma outra coisa bem mais interessante que não esta daqui, mas comecei a viajar na maionese e, quando me dei conta, vim parar aqui.
Obrigado, muito gentil de sua parte. É só seguir por aqui, certo?

Mas como é que eu vim parar aqui?
Porra, de novo, de novo nesse lugar.
Desculpe, devo ter me perdido. O que? Ah, não, não, isso acontece com uma certa frequência, sabe como é né, uma idéia puxa a outra e no final, todas as idéias interessantes ficam em algum lugar que eu já nem me lembro mais.
Mas então, poderia me ajudar? Eu queria achar o caminho de volta. Eu ia escrever alguma outra coisa bem mais interessante que não esta daqui, mas comecei a viajar na maionese e, quando me dei conta, vim parar aqui.


Mas como é que eu vim parar aqui?
Porra, de novo, de novo nesse lugar.
Desculpe, devo ter me perdido. O que? Ah, não, não, isso acontece com uma certa frequência, sabe como é né, uma idéia puxa a outra e no final, todas as idéias interessantes ficam em algum lugar que eu já nem me lembro mais.
Mas então, poderia me ajudar? Eu queria achar o caminho de volta. Eu ia escrever alguma outra coisa bem mais interessante que não esta daqui, mas comecei a viajar na maionese e, quando me dei conta, vim parar aqui.


Mas como é que eu vim parar aqui?
Porra, de novo, de novo nesse lugar.
Desculpe, devo ter me perdido. O que? Ah, não, não, isso acontece com uma certa frequência, sabe como é né, uma idéia puxa a outra e no final, todas as idéias interessantes ficam em algum lugar que eu já nem me lembro mais.
Mas então, poderia me ajudar? Eu queria achar o caminho de volta. Eu ia escrever alguma outra coisa bem mais interessante que não esta daqui, mas comecei a viajar na maionese e, quando me dei conta, vim parar aqui.
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Mas como é que eu vim parar aqui?
Porra, de novo, de novo nesse lugar.
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Mas então, poderia me ajudar? Eu queria achar o caminho de volta. Eu ia escrever alguma outra coisa bem mais interessante que não esta daqui, mas comecei a viajar na maionese e, quando me dei conta, vim parar aqui.


Mas como é que eu vim parar aqui?
Porra, de novo, de novo nesse lugar.
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Obrigado, muito gentil de sua parte. É só seguir por aqui, certo?

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Porra, de novo, de novo nesse lugar.
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etc


quinta-feira, 5 de março de 2009

Going Places Sitting Down


Caminhava lentamente, sob um espectro de cores que só o céu poderia ter.

No horizonte, sobre um circular espelho d'água, erguia-se aquele grande monolito retilíneo e vertical, que sugeria uma invisível reta que dividia ao meio o dia, entre o Sol e a Lua, e o infinito arco da miragem do limite da Terra.

Deveras, uma bela visão naquele dia morto em que as horas pareciam não passar e em que todos os relógios pareciam marcar uma eternidade rotativa.

De fato, marcavam, realmente, uma eternidade rotativa, mas naquele momento, pouco lhe importava.

A preguiça do tempo era insuportável, mas também era contagiante, e o fez se sentar para recepcionar, sob a sombra da grande reta, a escuridão estrelar que chegaria em breve.

Enquanto esperava, o vento soprava, varrendo as folhas caídas, desarrumando seus cabelos e acariciando a água que ilhava o monumento.

O ar se movia e, em sincronia, a água se deixava mover, fazendo bailar sobre ela os reflexos das nuvens e do monolito, cujas retas, tão imponentes no ar, tornavam-se graciosas curvas e ondas no líquido.

Neste exato momento, o vento soprou-lhe um pensamento: na visão de alguém submerso, a imagem vista seria o exato oposto, as retas do monolito, tão imponentes debaixo d'água, tornariam-se graciosas curvas e ondas no ar.

Separadas por uma camada ilusória, as visões eram uma só, sendo que o único fator que mudava era apenas o ambiente em que se encontrariam os observadores, cada um de um lado do espelho.

O vento, então, soprou mais forte, trazendo-lhe outro pensamento: e se os observadores se deparassem, vendo o outro na trêmula face reflexiva da água? Achariam que é um reflexo ou reconheceriam uma outra pessoa do outro lado do espelho?

Sem responder a si, ao menos com palavras claras e distintas, ele se levantou e continuou a caminhar lentamente, agora sob uma pálida luz que só a Lua poderia ter.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Escher


A campainha toca.
Uma pessoa vai até a porta.
Não tem olho mágico.
A campainha toca.
Ela pergunta em voz alta "Quem é?".
Não há resposta.
A campainha toca.
Ela olha ao lado da maçaneta.
Há uma campainha.
Ela toca.
Do outro lado, uma campainha toca.
Uma pessoa vai até a porta.
Não tem olho mágico.
A campainha toca.
Ela pergunta em voz alta "Quem é?".
Não há resposta.
A campainha toca.
Ela olha ao lado da maçaneta.
Há uma campainha.
Ela toca.

Ad infinitum.

____________________________________

Hipótese 2:

A porta se abre para os dois lados.
Como se houvesse um espelho, a pessoa se depara com seu reflexo do outro lado da porta.
Ambas se olham em silêncio, compreendendo-se (a si) sem palavras.
Uma delas pegunta:

- Hum, não quer entrar?


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O Imortal


Ele é um milagre. 

Assim disseram os bombeiros, quando o tiraram com o coração ainda pulsando das ferragens de um recém ex-automóvel. 

Ele é imortal. 

Assim disseram os médicos, quando reconstruiram cirurgicamente várias partes, incluindo vitais, de seu corpo. 
Quando aquele homem acordou, após um coma de três anos, todos os funcionários do hospital foram visitá-lo. Durante seu longo sono, foi notícia de jornal, capa de revista médica, assunto de programas de bizarrices e a lenda mais famosa daquele ambulatório. 
Agora, três anos depois de seu acidente, quando abriu os olhos, novamente virou o assunto mais comentado, ao menos daquele hospital, por duas semanas, mas o mundo já o havia esquecido e a recíproca era verdadeira.

Ele esquecera o mundo.

Olhou-se no espelho e não reconheceu sua fisionomia.
Passou a mão na barba por fazer e não se recordava daquela sensação áspera.
Por fim, olhou no fundo daqueles olhos do outro lado do vidro, contudo, rapidamente desviou seu olhar. Algo naqueles olhos desconhecidos o incomodava profundamente.
Não tinha carteira, documentos, endereço, telefone, não tinha nome nem idade e nenhum parente ou amigo foi visitá-lo nestes anos. 
Era um ninguém.
Procuraram em bancos de dados de pessoas desaparecidas, em bancos de dados de pessoas não desaparecidas e até em bancos de dados de pessoas falecidas. 
Nada.
As teorias que os curiosos propunham era que ele era um estrangeiro foragido, ou que ele vinha do sertão sem lenço sem documento, ou até mesmo que ele se materializou do nada. 

Nome?
Não sei.
País de origem?
Também não sei.
Idade?
...
Qual é a última coisa de que se lembra?
Cara, também não sei. Não me lembro de nada. Não sei nem ao menos porque estou neste hospital. O que aconteceu?

De todas as pessoas incomodadas acerca do mistério e da desconfiança daquele homem, de todas as pessoas obstinadas a descobrirem quem ele realmente era, ele, sem dúvida, era o mais.

Anos se passaram desde então.
O homem já tinha resolvido toda a burocracia para ser aceito pela sociedade, escolhera para si um nome qualquer, morava em um pequeno apartamento alugado e ganhava a vida fazendo traduções.
Contudo, a posse de tudo isto não diminuia o fato de não possuir um passado.
Além disso, vivia mergulhado em um tédio rotineiro e, por mais inédito que algo acontecesse em sua nova vida, nada lhe parecia surpreender. Possuía um incrível conhecimento de línguas e culturas, mas não fazia a mínima idéia do porquê. Tudo lhe parecia uma repetição de ciclos.
Cada dia mais incomodado e infeliz, buscou sua origem utilizando métodos convencionais burocráticos e não burocráticos e métodos não convencionais, de regressão e alucinógenos a quiromancia e mapas astrais.

Nada.

No desespero, começou a frequentar as mais diversas religiões até que, numa certa noite, sonhou com um estranho palimpsesto arquitetônico, uma surreal sobreposição de uma igreja cristã com um templo hindu, um mosteiro budista, uma mesquita islâmica e outras construções religiosas. Naquele lugar de seu inconsciente, em que diversos corpos ocupavam o mesmo lugar no espaço, todos os ícones, todos os anjos, santos, deuses, semideuses e orixás, eram espelhos. 
Ele via sua imagem em todos os lugares e sentiu a mesma sensação que teve ao despertar de seu coma.

Olhou-se no espelho e não reconheceu sua fisionomia.
Passou a mão na barba por fazer e não se recordava daquela sensação áspera.
Por fim, olhou no fundo daqueles olhos do outro lado do vidro, mas, desta vez, não desviou seu olhar.
Sentiu-se tragado para dentro dos olhos de sua imagem e ali, dentro daquele outro que era ele próprio, compreendeu a si mesmo.

Ele era imortal. Ele era um milagre.
Lembrou-se de sua vida, que era a história da humanidade. De todos os verbos que um homem é capaz, o único que não experimentou foi morrer.
Incapaz de criar um sentido para o mundo, incapaz de criar outros mundos e incapaz de fugir e de superar sua condição humana, de tempos em tempos criava um sentido para sua vida ao apagar, mesmo que temporariamente, sua memória, presenteando sua vida com a morte.
Como uma fênix, vivia diferentes vidas que se auto-extinguiam, mas sem nunca deixar de nascer com a mesma matéria com a qual morria.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Paciente 333

Nota para os desavisados: este conto faz referência a esta estranha e verídica notícia


Três tiros, um dois três, bang bang bang.
Achei a resposta do porquê meu pai conseguiu se matar com três tiros na cabeça.
Dezesseis anos depois, achei a resposta. Achei e vim parar aqui, neste lugar de merda.
Merda, merda, merda. Manicômio de merda.
Bala no córtex motor, plausível. Possuído pelo diabo, beleza. Anomalia neuromotora congênita, é uma boa. Agora, fantasia literária?! Nãããão, você é louco, louco, louco.
Mas eu tô te falando. Você tem de acreditar em mim, você tem, tem sim.
Ele conseguiu botar três balas na cabeça porque ele é um personagem fictício. Meu pai. Meu querido pai, papaizinho é uma fantasia literária e não precisa obedecer as leis físicas.
Eu também sou. É, sou sim. Euzinho, filho primogênito de Robert Thompson, sou um devaneio literário, sou meramente feito de palavras. E só estou falando o que estou falando porque meu autor quer que eu diga estas palavras. Você acha que é merda coincidência meu pai se matar com três tiros na cabeça e eu ser o paciente 333?
Mas como não acredita em mim? Há, e ainda me insulta?
Você nem ao menos aparece no texto, seu merda! Eu sou o personagem principal desta história, assim como meu pai também foi um. Ninguém sabe quem você é! Ninguém, ninguém, tá, ninguém! Nin... mas como assim, você sou eu?
Não, não pode ser, eu não estou falando sozinho, não, não eu, eu não sou louco! Louco era meu pai que meteu três balas na cabeça quando eu tinha sete aninhos!
Não, não, não, espere aí. Calma, cara. Eu sou só um personagem. Nada disso é real. Sou só um personagem e nada disso é real. Só um personagem e nada, olá, enfermeira, como vai?
Eu não, não, eu não estava gritando sozinho... Mas, mas... Ah, mas nem é tão tarde assim! Ah, vai, por favor, eu prometo... só desta vez... não, injeção não! Injeção não! Não, você não é real, não é real! É só uma personagem que o autor inventou agora para fuder com minha vida! Não! Ah, socorro, me solta! Eu quero uma arma! Papai!



sábado, 13 de setembro de 2008

Falsas notícias circulam pela internet

Sábado, 13 de setembro de 2008, 18:03 - Notícias Terra

Desde o boom da internet, falsas notícias contaminam a rede. Correntes alertando coisas que não existem, blogueiros que inventam notícias que tentam se passar por verdadeiras e que usam falsamente o nome de grandes agências de jornalismo, boatos espalhados sobre morte de celebridades que estão saudáveis. Toda pessoa que utiliza a internet com frequência certamente já acreditou em algum boato criado por usuários da rede.

O perigo que aí reside é que, às vezes, o bom senso não é suficiente para discernir o confiável do falso, uma vez que sabendo se utilizar da linguagem jornalística e baseando os argumentos em fatos estatísticos ou em nomes de formadores de opinião, o autor da notícia consegue facilmente convencer o leitor de algo que nem sempre é verdadeiro.

Para se ter uma idéia da quantidade de falsas notícias na internet, pesquisas feitas pelo Instituto de Estatística e Gestão da Internet mostram que cerca de 72% das estatísticas que circulam em sites não confiáveis são inventadas.

O pior, porém, é que a rapidez e o baixo custo de comunicação oferecidos pela Internet têm gerado não só um infindável número de boatos eletrônicos repassados entre usuários crédulos. Grandes companhias também têm divulgado falsas notícias, as quais são vendidas como se fossem verdadeiras. Nas últimas semanas, sites como Yahoo, The Register, IDG News Service, The Standard Industry e outros foram "apanhados". As informações são do site InfoGuerra.

No dia 15, o Yahoo noticiou que a Microsoft tinha admitido a existência de uma senha secreta em seus servidores IIS. A informação foi dada como uma descoberta recente. Além de não ser verdadeira, já tinha sido divulgada há mais de um ano (!) pelo Wall Street Journal.

O fato obrigou a Microsoft a publicar uma nota em seu site desmentindo a informação e apontando o que de real existe na história: uma vulnerabilidade do IIS, que não tem nada a ver com senhas secretas. A empresa também solicitou que o Yahoo retirasse a notícia do ar, no que foi atendida. Mas a página com o espaço vazio ainda pode ser vista.

Na primeira semana de maio, o site britânico The Register divulgou a história de que a BBC fora vítima de um hacker, o qual teria postado no site da conhecida agência uma falsa notícia sobre a morte de uma artista pop. Depois disso, a informação saiu no IDG News Service, The Standard Industry, SecurityNewsPortal e alguns outros.

Tudo não passou de um trote. Na época, InfoGuerra entrou em contato com a repórter de The Register, que admitiu que tinha sido enganada por um velho truque da Internet e havia cometido um erro básico em jornalismo: recebeu a informação de uma fonte e divulgou-a sem checar com outras. Posteriormente, The Standard Industry, um dos divulgadores do boato, esclareceu-o.

Alguém forjou uma página da BBC, usando um artifício do protocolo hipertexto para autenticação de senhas em sites protegidos. O diferencial é o sinal de arroba que normalmente passa a fazer parte do endereço, algo como http://nome_do_usuario:senha@www.nome_do_site.com. Aproveitando-se desse artifício, é possível criar uma falsa página, colocando-a no lugar do nome do usuário e utilizando o endereço de um site verdadeiro.

O truque pode ser visto numa hilariante página fictícia da própria BBC, que anuncia, com fotos, a trágica morte do coelho da Páscoa. Clique em http://news.bbc.co.uk!articles@3276960428/hi/english/uk/newsid/123456.htm para acessá-la (usuários de Mac devem clicar aqui).

Outro exemplo semelhante é o de uma página falsificada da CNN contando a história de um obscuro homem chamado Coby Santos, convidado para fazer parte do próximo filme de James Bond, ao lado de figurões como Pierce Brosnan, Anthony Hopkins e Catherine Zeta-Jones. A página foi criada em fevereiro deste ano e ainda está no ar. Clique aqui para vê-la.

No ano passado, um grupo humorístico espalhou o boato de que havia sido criado um servidor alimentado por batatas. Vários sites importantes caíram na pegadinha e publicaram a história. O site brasileiro Magnet, que teve a dignidade de se admitir entre os enganados, possui a matéria.

Como se vê, é muito fácil forjar notícias utilizando recursos tecnológicos trazidos pela Internet. E as empresas de comunicação, sempre ávidas por novidades, muitas vezes "vendem o peixe como lhes foi passado". Já que a Internet facilita o acesso à informação, é aconselhável usá-la também para checar as notícias, antes de divulgá-las.

Giordani Rodrigues

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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Paciente 212


- Olhe, aqui está a nova planilha do 212.
- Como assim, nova planilha? Ontem me disseram a mesma coisa...
- Ah, você deve ser o novo enfermeiro, não é?
- Isso, entrei há três dias.
- Bom, fiz uma nova porque o 212 tem alguns probleminhas, sabe...
- É, acho que sim, senão não estaria aqui. Mas por que uma planilha nova por dia?
- Imagine que antes de vir parar aqui, ele começou a tomar uns remédios para dormir e viciou.
- E daí?
- E daí que, para compensar o sono, ele começou a tomar um monte de café e coca cola e viciou.
- Hmmmm.
- Daí ele começou a ficar muito agitado e começou a tomar calmantes e pimba, viciou também.
- Cacete.
- Depois, começou a cheirar coca para ficar mais ligadão e para compensar o efeito, ele viciou em maconha, que deixava ele com uma fome lhe rendeu 37kg.
- Cara, não acredito.
- E tem mais! Ele começou a tomar laxante para perder um pouco de peso e, para não cagar tanto, tomava junto um remédio para prender o intestino.
- O cara sozinho sustentava a indústria farmacêutica, é?
- Então ele viciou nos diet shake da vida e em remédios para emagrecer, ficou anoréxico e viciou em biotônico e
- Tá tá, ok, já entendi. Vou lá dar os remédios dele.
- Espere, deixa só eu contar o final da história.
- Qual é o final?
- Sabe por que você ganhou este emprego?
- Porque meu currículo é legal?
- Não, é porque o enfermeiro antes de você viciou ele em sexo.

sábado, 30 de agosto de 2008

Paciente 561


- Sabe, você deveria sair um pouco de seu quarto.
- Há, tá louco é, doutor? Só tem gente maluca neste hospício.
- Mas ir lá fora, no pátio, fará bem à sua saúde. Sabe, respirar um pouco de ar fresco...
- Não é seguro, doutor, já falei. Vai que um desses loucos aí me ataca quando eu estiver desprevenido? Essa gente não é normal, são completamente imprevisíveis. Ontem mesmo, a gordinha do 35 ficou rebolando pelada no corredor.
- Bom, mas ficar sozinho durante muito tempo neste quarto não vai te fazer bem algum.
- Tem razão, aqui também não é nada seguro. Posso mudar de quarto?
- Mas por que razão você acha que aqui não é seguro?
- Terceiro andar, qualquer dia desses a estrutura pode ceder, estou longe da saída em caso de incêndio... Quero um quarto no subsolo.
- Mas não temos subsolo...
- Que falta de segurança ein, doutor! Prédios ficam expostos a todo tipo de objeto voador, e todo objeto voador pode cair, um avião, um asteróide, um helicóptero, um disco voador...
- Ééééé... vamos ver, você não gosta de esportes? Futebol, talvez?
- Não, eu posso me machucar, quebrar a perna e até ter problemas cardíacos por esforço físico demasiado.
- Então que tal xadrez? Você que é inteligente se daria muito bem.
- Sim, obviamente eu seria um bom jogador, mas o adversário, ainda mais neste hospício, pode ter reações agressivas se perder, como enfiar a torre no meu cu e furar meus olhos com o bispo.
- Olha, você sabe muito bem porquê você está aqui. Seu irm
- Meu irmão é quem está louco! Ele fez sua cabeça, doutor! Eu estou muito bem e
- Pessoas normais não ficam sete meses trancafiados em sua própria casa. Sair e conviver com pessoas é o primeiro passo para ficar bem de verdade.
- Não saía
nos dias de chuva porque podia escorregar, quebrar a coluna e ficar tetraplégico e nos dias de sol porque um motorista distraído podia me atropelar e fazer de mim um vegetal, e nenhuma das duas opções, para mim, é estar vivo.
- Mas, pelo que consta no relatório, você também não recebeu ninguém em sua casa, além de seu irmão.
- Bom, na verdade eu não o recebia, ele invadia minha casa, me deixando exposto a milhões de vírus e bactérias que ele trazia consigo.
- Entendo, entendo, entendo. Sabe, se você colaborar com o tratam

- Não vou colaborar coisa nenhuma porque, quantas vezes tenho de repetir, não sou louco! Meu irmão veio aqui, fez sua cabeça e agora estão ambos conspirando contra mim. Tenho de sair daqui imediatamente!
- Não, espere! Enfermeira! Traga um sedativo, rápido!
- Não, doutor, e se a enfermeira for uma paciente disfarçada e quiser me matar com uma injeção letal?
- Acalme-se, não há nada de letal nesta seringa.
- Mas pode ser heroína ou soro da verdade ou até mes
- Ufa... enfermeira, traga uma maca e encaminhe-o para a ala 4.


quarta-feira, 30 de julho de 2008

Conto Zen


Embora não siga nenhuma religião, li alguns contos Zen e fiquei maravilhado com a força descomunal da simplicidade destes textos e, inspirado neles, criei este.


Certa vez, um monge, conhecido por seu talento e suas habilidades artísticas, foi convidado a expor em um renomado museu de arte contemporânea da Europa.
Com um sorriso, ele aceitou o convite e levou uma folha de árvore ainda verde.
Os curadores, mecenas e grandes intelectuais olhavam maravilhados para a folha na mão do monge e iniciaram uma longa e acalorada discussão em busca da mensagem que o artista queria transmitir.

Incrível, um silencioso signo da simplicidade e da inocência.
Genial, sem dúvida, é uma metáfora da vida humana.
Não, creio que é uma mensagem da preocupação com a vida e com a natureza que remontam ao equilíbrio e à harmonia do yin yang, que remontam à sabedoria da cultura oriental, é uma crítica contra o consumismo e a depredação do sistema capitalista ocidental e um regresso às origens do homem, não acha?
Se quer saber, acho que o artista enfatizou o processo da criação desta obra que foi, na verdade, criada pela natureza, é um lembrete de que também somos parte dela.
Não sejam tolos, será que ninguém percebeu que o grande tchãns da obra é a efemeridade da mesma?
Claro! E é um ser vivo! A efemeridade da vida, o ciclo vital, a ciclicidade de nossa história, os ciclos que movimentam nosso mundo.
Uma verdadeira obra prima. Inicia uma vanguarda.
Deveras. Há nesta obra uma clara crítica contra a arte contemporânea e a história da arte. Um ready made da natureza, certamente há uma crítica contra a megalomania e a complexidade poluente de certos artistas contemporâneos.
Acho que vocês estão complicando demais. Acho que são as nervuras da folha que é o verdadeiro signo semiótico no qual deveríamos nos concentrar. São uma metáfora dos caminhos que se bifurcam, como uma citação de Borges.
Esperem, senhores, esperem.

Silêncio.

Muito bem. Meu caro monge, será que você poderia nos esclarecer o significado desta obra?
Sim.
Esplêndido! Então nos diga, o que é esta folha?



É uma folha.



segunda-feira, 21 de julho de 2008

O conto da morte do irmão de Charles


Charles estava escovando os dentes quando, a menos de um metro de distância, seu irmão, no box do mesmo banheiro, pisou no sabonete que caíra e bateu a nuca no registro de água, interrompendo a canção sertaneja brega que ele cantava com tanto vigor.
Imediatamente, Charles desatou a rir, cuspindo a espuma da pasta de dente no espelho e nos azulejos.
Foi um espetáculo trágico e cômico, não necessariamente nesta ordem, e Charles, depois de gargalhar por dois minutos ininterruptamente, abriu a cortina translúcida de plástico e entrou da maneira como estava, de cueca e com a escova de dentes na boca, para ver o estado de seu irmão.

Morto.

Sob a luz fria de uma lâmpada fluorescente de 60W, Charles abraçava seu irmão, cujo corpo se encontrava nu e os cabelos, cheios de shampoo. As gotas quentes que caíam do chuveiro se misturavam com suas lágrimas e com a baba branca sabor menta anti-tártaro para dentes sensíveis que escorria de sua boca e desenhavam um trajeto de seu rosto para sua cueca.
Ele morreu assim, pá, repentinamente, sem dor, sem sofrimento, sem últimas palavras, sem proteger alguém de um tiro com o próprio corpo, sem contar seus planos malignos de dominar o mundo, sem declarações de amor, sem revelações bombásticas a respeito de sua sexualidade, sem revelar as coordenadas de um tesouro escondido, sem conselhos sábios ou frases de efeito, enfim, morreu, pá, simples assim.
Não deu seu último suspiro nos braços de seu irmão e já se foi de olhos fechados, sem ao menos lhe dar a oportunidade de fechá-los como nos filmes.


Bom, mas e agora, o que diabos fazer com o corpo?
Seus pais morreram há anos em uma morte tipicamente merecedora de um Darwin Awards, quando, para não dar na vista dos filhos, faziam sexo dentro do carro que estava dentro da garagem com o motor ligado para manter funcionando o ar condicionado e se intoxicaram com monóxido de carbono.
Só havia, portanto, Charles para cuidar do corpo de seu irmão.
Construir uma pirâmide estava defitinivamente fora de cogitação, pois ele não tinha dinheiro para bancar nem ao menos um funeral descente com um caixão descente nem pagar mensalidade de um cemitério particular.

Teria de ser um método barato.
Jogar o cadáver no mar poderia lhe trazer problemas se ele aparecesse boiando na praia de Copacabana, enterrá-lo no jardim não seria possível, uma vez que ele morava em um prédio, e Charles era cagão para métodos de filmes educativos de psicopata ou de gangster.
Depois de muito pensar, Charles chegou à conclusão de que ficar soterrado e sendo comido pelos vermes não era nada agradável, ao contrário da poesia de ser transformado em cinzas e lançado ao mar.
Após alguns dias na churrasqueira emprestada do vizinho, o irmão de Charles foi parar num pote de sorvete como o feijão que sobra do almoço. Na falta de um urna funerária, tinha ainda a vantagem de ser um recipiente hermético.
Charles, então, pegou um ônibus, desceu para o litoral e assim que chegou na rodoviária guardou o pote de sorvete num guarda volumes.
Dali, foi para uma pousadinha descansar.
Abriu o chuveiro, entrou e pá, teve o mesmo fim que seu irmão, porém sem risadas, sem churrasqueira e sem a eternidade num pote de sorvete dentro de um guarda volumes.


quarta-feira, 7 de maio de 2008

O dia em que eu morri

- Você é o próximo. Pode entrar que a doutora já já vai estar te atendendo.
Estar te atendendo. Que horror. Só não é pior que esta maldita sala de espera.
- (sorriso amarelo) Obrigado.
Eu me levantei e me dirigi à porta de madeira com uma plaquinha metálica estampada com o nome da médica, deixando finalmente aquele lugar irritante.
Dentro do consultório, examinei a sala e os enfeites na mesa. Na parede, estavam os diplomas e outros papéis da tão renomada doutora. Infelimente, não pude sequer ler um, pois logo entrou por uma outra porta a mulher de jaleco branco mais bela e doce que já vi em toda minha vida.
- Olá, como vai?
Voz bonita. Sorriso bonito. Toda bonita.
- Vou bem, doutora, vou bem.
Ela notou que eu estou olhando que nem bobo para ela.
- Doutora, espero que isto não atrapalhe a consulta, mas devo dizer que você é a mulher mais bela e doce que já conheci.
- Oh, obrigada! (sorriso) É muito gentil da sua parte. A maioria não acha isso de mim.
- Ora, estou apenas dizendo a verdade.
Ouvindo isto, a médica olhou-me de cima a baixo, deu um sorrisinho malicioso e disse:
- Bom, mas vamos ao que interessa.
E num gesto selvagem abriu minha camisa e pegou o estetoscópio para escutar meu coração.
- E então, o que ele te diz?
Sem dizer nada, ela colou seu corpo curvilíneo no meu, olhou-me no fundo de meus olhos e beijou minha boca com seus lábios vermelhos e carnudos.
Ah, ela com certeza sabia o que estava fazendo! Seus lábios juntos aos meus pareciam drenar minhas forças tamanha era a intensidade daquele beijo único.
- E agora, doutora, o que meu coração te diz?
Ela encostou a orelha em meu peito.
- Nada. Absolutamente nada. Não está batendo.
- O quê?! Não está batendo?
- Calma isso é ótimo! Quer dizer que consegui te curar com um beijinho.
Ah, a doce doutora Morte! Diziam que até hoje, não havia sequer um paciente que ela não conseguiu curar. Quando nenhum médico conseguia achar a cura para uma doença, lá estava ela. Quando nada parecia cicatrizar um ferimento de qualquer tipo e tamanho, sua experiência conseguia dar um jeito.
Ela era a única que curava doenças jamais vistas e até mesmo câncer.
- Você está ótimo. Já pode ir.
- Como assim? Mas e o beijo? Eu estava só começando...
- Você ouviu, pode ir.
Que vadia.
E quando eu estava prestes a abrir a porta, senti meu coração voltar a bater.
- Dou... doutora, espere, tem algo errado comigo!
Ela novamente usou o estetoscópio, correu para a mesa, apertou um botão no telefone e disse:
- Rápido, chame a emergência!
Desesperada, ela armou uma maca e me fez deitar.
- Vamos! Diga-me que parentes falecidos eu devo contatar caso aconteça alguma coisa!
- Avise meu avô ou minha avó.
- Está certo. E qual é o seu convênio? Também tenho de avisar seu convênio!
- Convênio?
- Cristão, Judeu, Budista, Muçulmano, você sabe, rápido, você não tem muito tempo.
- Ahhh tá. Não tenho. Sou ateu.
- Ah, ok, ok.
- Doutora Morte, sinto que vou voltar... pode só me dizer para onde vai ou o que acontece com quem morre?
- Olha... na v

- Batimentos estabilizados em 72. Pressão ainda baixa, mas subindo. Pode desligar o desfibrilador.



sexta-feira, 18 de abril de 2008

Chandala

Quem não a conhecia, enxergava uma mulher infeliz de meia idade, solteira, sem filhos, vivendo uma "vidinha de merda."
Quem a conhecia, também.
Chandala, que raramente saía de casa, não recebia visitas de quase ninguém, nem mesmo de seus amigos, até talvez porque ela não tivesse nenhum, apenas recebia em sua casa sua irmã esporadicamente.
Em sua última visita, ela disse para Chandala "se tratar, fazer terapia, se internar, arranjar uma vida, sei lá, eu sempre falo isso e você nunca me ouve."
Chandala, em resposta, repetia tudo o que sempre dizia à sua irmã, fazendo com que ela perdesse a paciência e a visitasse cada vez menos, "aquela insensível."
Depois que sua irmã saiu com passos rápidos pela porta da frente, ela começou a falar sozinha, indignada com o fato de sua irmã lhe trazer "uma garrafa de vinho enquanto há criancinhas morrendo de fome na África, mas que absurdo! Com o dinheiro gasto naquela garrafa, era possível alimentar oito ciranças, você não tem coração?"
Dois meses depois, sua irmã veio visitá-la novamente, talvez pela última vez.
Era seu
aniversário e sua irmã, a única que se lembrou, trouxe-lhe um bolo que "eu não preciso de bolo, quem precisa é aquele mendigo do outro lado da rua."
Assim era Chandala e, depois deste episódio, segundo ela própria, só melhorou.
Com sua irmã sem vir visitá-la mais, agora ela não só evitava usar aparelhos eletrônicos para não gastar energia como também não limpava a boca com guardanapo para evitar a morte de árvores inocentes, evitava peidar para não aumentar o teor de gás carbônico e metano da atmosfera, não se masturbava porque Deus poderia estar a observando, não falava palavrões porque o quadro de seu falecido-pai-deus-o-tenha poderia estar ouvindo, não cozinhava para não aumentar a temperatura global e evitava tomar banho para não gastar água.
Além disso, ela vendeu quase tudo o que possuia e doou o dinheiro para instituições pilan...filantrópicas, plantava árvores e gritava paz como sua solução para um mundo perfeito.
Às vezes, também gritava justiça, como no caso da menina morta e atirada pela janela pelo pai e pela madrasta, em que seus gritos obviamente foram ouvidos e, assim, a justiça prevaleceu graças à ela e outras pessoas do bem que se uniram e produziram boas vibrações.
Chandala, a perfeita, era uma santa completa.
Salvara milhões de vidas não comendo bacon e rezava todos os dias para o mundo não acabar, mantendo, com suas abençoadas palavras de louvor, o nível seguro de entropia do universo.
Retificando, uma santa completa a quem só faltava o martírio.
Afinal de contas, com sua morte, ou melhor, com sua passagem, sobraria mais oxigênio e alfaces para o resto da humanidade.
Assim, ela decidiu que se atiraria pela janela, mas num segundo momento, pensou que poderia atingir alguém lá embaixo e decidiu que melhor seria cortar os pulsos, idéia que também foi abandonada porque "coitado do cara que vier limpar todo o sangue, mas já sei, a melhor idéia" seria envenenar-se, é claro, mas lembrou-se de que ela era careta e drogas bah.
No final, ela acabou descartando o suicídio, afinal de contas, como poderia ter me esquecido, o universo continuava em funcionamento graças a ela.



quarta-feira, 16 de abril de 2008

A verdadeira história do Universo

Era uma vez um jovem talentoso e ambicioso que, por ser pequenino e fraco, ganhou o apelido de "Deus".
Sempre duro e pobre, ele ganhava a vida limpando lixo espacial e poeira cósmica, até que um dia teve uma brilhante idéia.
Juntando um monte de lixo que encontrara, ele criou pequenos objetos, hoje mais conhecidos como planetas, e colocou-os na órbita de astros incandescentes.
As divindades supremas ficaram maravilhadas com a ingenuidade e a simplicidade daqueles objetos e logo uma delas o contratou como um estagiário de sua multi-universal.
Sua carreira estava começando a crescer, quando uma divindade de segunda acusou-o de plágio, dizendo que inventara os planetas há muitos milhões de anos antes que Deus, e entrou com um processo na justiça universal.
Assim que o juiz absoluto deu seu veredito, Deus foi demitido e teve gastar todas suas economias para pagar o processo, tendo de se mudar para um pequeno reduto de má reputação no cantinho mais pobre da mais pobre dimensão do universo, a Via Láctea.
Voltando para a escória, teve de fazer alguns trabalhos sujos, como tapar buracos negros, e também voltou a limpar lixo espacial e poeira cósmica.
No tempo livre, ele continuava a criar seus diminutos objetos e posicioná-los de maneira estratégica em seu improvisado ateliê, ao qual ele carinhosamente chamou de Sistema Solar.
Deus, porém, jamais esquecera de seu passado, e guardava rancor daquela divindadezinha de segunda categoria.
"Eu sou melhor e vou provar! Eu sou Todo Poderoso!"
E num acesso sentimental repetido somente pelos expressionistas, Deus criou vida no planeta Terra.
Abismado com sua própria criação, ele logo começou a mostrar a todos sua mais nova obra, e logo os olhos do universo voltaram para Deus.
Feliz com sua reputação em alta, foi comemorar com alguns amigos, mas acabou exagerando nas doses e, quando voltou para casa, olhou para sua obra.
"Euu possssso fazer melhó que iss... eu zou o Dodo Bodero...Atchim!"
E num espirro, matou os dinoussauros.
"Buda que o pariu, que merda!"
E dizendo isso, tentou limpar a caca que tinha feito, mas só piorou, dando origem ao ornitorrinco.
Visto o que tinha feito, ficou desesperado e lembrou-se do velho ditado popular: "Tá no inferno, abraça o Capeta."
E assim, chamou seu melhor amigo para ajudá-lo.
Após consolá-lo e recomendar descanso, o Capeta deu um medicamento para ajudar na ressaca do pobre coitado e deixou-o só.
Mal eles sabiam que o pobre coitado era alérgico, e assim que o remédio começou a surtir efeito, Deus teve uma crise intestinal tão violenta que chegou a respingar no planeta Terra.
Quando viu a cagada que tinha feito, tudo o que podia fazer era suspirar.
"O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente. (Gênesis 2,7)"
Tentando se recompor, olhou novamente e viu que seu cocô começou a se mexer e a louvá-lo.
Sentindo um carinho no ego, ele quis mostrar para todos o que tinha feito, mas todas divindades, ao olharem de perto, diziam: "Sua merda estragou seu planeta inteiro."
E Deus, sem conseguir patentear sua criação, acabou empobrecendo e perdendo seu interesse na Terra, deixando a abandonada e eternamente em busca de um pai.
Hoje, ainda é possível encontrá-lo por aí, ganhando uns trocados cantando "God", de John Lennon.

quarta-feira, 12 de março de 2008

A Morte e a Memória

Em um fortuito encontro planejado pelo acaso, ele reencontrou uma antiga paixão, esquecida em meio a um álbum de fotografias empoeirado.
Desde então, aquela pequena brasa moribunda que havia permanecido em imbernação por longos anos sob densas camadas de cinzas reacendeu e queimava cada vez mais forte.
Sem conseguir pensar em outra coisa, resolveu contatá-la pelo telefone, mas ela já não mais residia naquele endereço que lhe trazia tantas lembranças.
Começou, então, a buscar notícias dela por meio de terceiros.

Após alguns dias de fracassadas tentativas, finalmente soube, por meio de uma velha amiga, que há algum tempo, sua antiga nova obsessão sofrera um acidente automobilístico que a deixou entre a vida e a morte.
Os médicos conseguiram salvar completamente seu corpo, mas seu cérebro sofrera danos irreversíveis e sua memória, de longo e de curto prazo, estava comprometida a tal ponto que ela teve de ser transferida para receber cuidados especiais em um asilo.
O choque que ele sentiu ao ouvir a trágica notícia tirou dele qualquer palavra que ele havia em mente.
Levantou-se, acenou com a cabeça para sua amiga e voltou para casa em silêncio.
Algo dentro dele havia mudado desde que soube da notícia.
Ele sabia.
Ele sentia.
Só não conseguia dizer o quê.
Passou o dia inteiro na poltrona, quieto e imóvel.

No dia seguinte, quando acordou, viu a foto que retirara do álbum e deixara sobre a mesa de cabeceira.
Esta imagem o fez fechar os olhos para a notícia do dia anterior e motivá-lo a ir visitá-la.

Logo que chegou, ele a reconheceu.
É, era ela mesma.
E continuava linda e jovial.
Sentada no jardim com um olhar sereno direcionado para as nuvens bailando no céu, nem percebeu aquele estranho se aproximar.
- Bonito dia, não? - disse ele, um pouco sem jeito.
As primeiras palavras que lhe surgiram foram "Lembra-se de mim?", mas as engoliu.
Ele não queria ouvir a resposta que sabia que ouviria.
Parte dele ainda negava, ainda queria acreditar que havia uma parte dela que o guardava carinhosamente na memória.
- É... - disse ela com um ar vago, analisando o recém chegado - acho que sim...
Sem saber direito o que dizer em seguida, os dois permaneceram em silêncio até que ele, um pouco incomodado, começou a falar do tempo.
Novamente, o silêncio sobreveio após algumas palavras, e assim se seguiu com outros assuntos banais.
Ainda relutante em aceitar o que já sabia, começou a fazer diversas perguntas, quase todas relacionadas a algum momento do passado que ambos compartilharam.
A resposta que ouvia era sempre negativa.
Em um último esforço para tentar vencer o combate impossível, juntou as migalhas de esperança que lhe sobravam.
Com os olhos úmidos e um pouco gaguejante, ele perguntou hesitante:
- Qual... me me desculpe perguntar isso, mas q-qual é a última coisa de que se lembra?
E ela calmamente lhe contou o que fizera naquela manhã, a pequena conversa que tivera com um médico, as instruções que dele recebera...
- ... e sinto uma estranha sensação de que esqueci alguma coisa, sabe? Só não consigo lembrar o quê. Daí eu estava caminhando aqui nesse jardim tentando lembrar quando olhei para cima, vi as nuvens e esqueci que tinha esquecido, haha, não é engraçado? - disse ela, sorridente - E então o senhor apareceu. Me disseram que amanhã eu já não vou mais lembrar do seu nome, mas como você se chama?

Ele caiu em prantos.
Finalmente, compreendeu que sua amada havia falecido naquele acidente.
Aquela mulher de carne e osso em sua frente era um fantasma intangível que o assombrava, que invocava nele as memórias de quem ele amou.
Que invocava nele as memórias que ele ainda ama e sempre amará.
Entendeu que se por ventura jamais tivesse recebebido tal notícia, ela ainda, ao menos para ele, estaria viva, com o coração palpitante, perdida em algum lugar do mundo, fazendo com que a morte existisse em diversos momentos, sendo mais uma série de múltiplos eventos ocorridos quando a informação é recebida em diversos pontos do que um acontecimento único.
E em sua morte, ela agora viva em paz.
Vivia em cada dia uma vida inteira.
Vivia cada dia como se fosse o último.
E em sua tristeza, ele agora aprendia a aceitar.
Compreendeu que era isso que ela era (ou foi).
Compreendeu que era isso que ele amava.
Memórias.







sábado, 19 de janeiro de 2008

Como o mundo

Era uma vez um menino que descobriu como o mundo funcionava.
Sonhador por natureza e revoltado por saber a verdade, jurou para si mesmo que mudaria o mundo a qualquer custo.
Tudo o que ele queria era só um mundo em paz, feliz e justo.
Seu primeiro passo foi plantar árvores e sair pelas ruas gritando paz.
Mas em todo lugar bombas continuavam a e x p l o d i r e árvores, a cair.
Então, o menino resolveu reunir seus amigos para elaborar um plano melhor.
Mas como eram ainda muito jovens e inocentes, não conseguiram chegar a lugar algum.



O tempo foi se passando e o menino, um menino já não era mais.
Agora ele era um homem, mas mantinha o mesmo sonho.
Com suas idéias revolucionárias e inovadoras e seu carisma, rapidamente conseguiu um cargo político e depois de alguns anos, ainda novo, conseguiu chegar à presidência.
Chegando lá, ele subiu no
mais alto banquinho do mundo e fez transmitir e permear suas palavras em outras nações.
Finalmente depois de tantos anos, ele estava a um p a s s o de atingir seu objetivo, restando apenas algumas localidades em que ele encontrava OPOSIÇÃO ao seu governo quase mundial.
Com alguns de seus colegas dizendo que poderia ser saudável haver uma
OPOSIÇÃO fraca a ele, o homem decidiu manter negociações esporádicas com os outros governos, e a paz, a felicidade e a justiça se imporam ao mundo jutamente com o homem por algumas décadas.
Muito tempo depois, porém, sua obsessividade na conquista de sua meta o fez entrar em guerra com os poucos países que se apresentavam contra sua política.
Sem conseguir impô-la, em poucos dias, dizimou povos e destruiu cidades inteiras, fazendo com que muita gente desacreditasse dele.
E desta forma, em alguns anos, o mundo havia rumado novamente à guerra, à injustiça e à infelicidade.



Eis então que surge um menino que descobriu como o mundo funcionava.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O fim do mundo

A notícia se espalhara tão rapidamente quanto um vídeo do youtube.
O mundo ia acabar em vinte e quatro horas e desta vez, nem Jack Bauer nem ninguém poderia salvar a humanidade.
Obviamente, quase ninguém foi trabalhar neste dia, com exceção de alguns poucos jornalistas e pessoas miseráveis ou de culturas tribais sem acesso a tal informação.
No resto do mundo, porém, em poucos minutos, todo dinheiro, preservativos e anticoncepcionais do planeta deixaram de ter sentido, o fato do mundo acabar num sábado não fazia a menor diferença e o caos tomou as ruas.
Famílias se abraçavam e choravam em igrejas mais cheias que a 25 de março em véspera de natal, declarações de amor e de perdão saturavam o ar juntamente com a fumaça de cigarros, narcóticos e qualquer outra coisa que soltasse fumaça, conhecidos em lágrimas se suicidavam em massa enquanto desconhecidos alucinados e sorridentes se amontoavam em orgias públicas, prisioneiros e loucos perambulavam soltos e saciavam a sede de vingança, lojas eram saqueadas e mulheres se cegavam com os saltos dos sapatos competindo pela última lata de caviar, coma alcóolico e overdose se tornaram uma epidemia, pessoas limpavam a bunda com notas de cem, atos de vandalismo aconteciam na rua paralela à avenida em que se juntavam pessoas vestidas de branco de mãos dadas cantarolando canções de paz e esperança, caçadores e outros portadores de armas caçavam gente por pura diversão, os sismógrafos do oriente médio registravam um pequeno tremor devido a milhares de suicidas com vários quilos de explosivos amarrados ao corpo que se explodiam simultaneamente e pessoas nuas corriam empurrando carrinhos de supermercado com outras pessoas nuas dentro enquanto João tomava um cafezinho e olhava pela janela com um sorriso.
Ele era dono dos meios de comunicação e o fim do mundo era invenção sua.
Não, o planeta não ia se explodir, mas com certeza era o fim do mundo como as pessoas o conheciam.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Rugas

Ninguém sabia ao certo quantos anos se acumulavam na profundeza verde dos olhos de dona Mena.
Só se sabia que ela era velha, muito velha e vivida.
Era
um mistério para todos o número de histórias que se escondiam sob suas rugas e seus cabelos brancos.
Além de saber que ninguém nada sabia sobre a velha cigana, o que todos sabiam era que a misteriosa senhora possuia um dom único de ler o passado, o presente e o futuro.
Nada de mapas astrais, horóscopo, quiromancia, bola de cristal, tripa de ganso, borra de café ou baralho de tarô.
Dona Mena lia rugas.
Ela dizia que havia uma história abstraída em cada vinco.
Cada arrependimento, cada momento intenso, cedo ou tarde se manifestariam como um marco na pele.
As que se manifestavam cedo demais, para ela era uma dica do futuro.
Por isso, ela admirava e gostava de pessoas com cara de papel amassado ou de cotovelo.
Eram bem vividas.
Por outro lado, ela não gostava de gente esticada e com botox.
Dona Mena dizia que quem escondia o passado, tinha vergonha do presente e medo do futuro.
Para os jovens, ela sorria e falava para voltar depois de vinte anos, sem cirurgia nem botox.
Aconselhava também a não correr atrás do tempo, pois a recíproca poderia vir a ser verdadeira.
Depois de tomar um chá com a idosa e sair, todos os jovens pensavam "mas daqui a vinte anos? A velha já vai estar morta..."
É, outra coisa que ninguém sabia é que Dona Mena era amiga do tempo.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Conversa de bar

Ambiente escuro, com pouca luz.
Murmurinhos e uma musiquinha chata ao fundo.
Quatro garrafas de cerveja sobre a mesa.
Três vazias e uma pela metade.
Dois copos saem das mãos e pousam sobre a mesa.
Um cinzeiro é deixado pelo garçom.
De um lado, dedos finos e pálidos com as unhas bem feitas tiram da bolsa um maço de cigarros.
- (solta a fumaça) Olha aquele casal ali, aposto que o cara, na verdade, é gay.
Do outro, uma mão grande passa pelo cabelo curto.
- (arruma o óculos) Por que você diz isso?
- Porque ele é. Um terço dos homens são gays, outro um terço também e ou não sabem, ou têm medo ou são enrustidos e só o um terço restante não é gay.
- Isso quer dizer que aquele cara ali com aquela mulher, segundo você, se encaixa na classificação dois, certo?
- É, (puxa o cigarro) mas acho que ele é um dos que tem medo.
- Então coitadinho desse casal. (bebe um gole) Ela está com um cara inseguro que vai passar a vida com medo de virar gay e depois com medo de ter um filho gay. (esvazia o copo)
- (suspira e solta a fumaça) É, o maior temor dos homens. (bebe um gole)
- (enche o copo, esvaziando a garrafa) Enquanto o maior medo das mulheres é não encontrar um machista homofóbico antes dos quarenta.
- Depois, (bate o cigarro no cinzeiro) é medo do cara transar com a secretária ou de trocá-la por mulheres de pixels. (traga o cigarro)
- Hahaha, mas é claro! (bebe mais um gole) Internet com banda larga e jogo de futebol na tv é o melhor refúgio antes da terapia de casal.
- (bate duas vezes o cigarro no cinzeiro) Isso para os homens. Para as mulheres é face-lifting, botox e chapinha. Acho que não conheço quase nenhuma mulher que aceita a idade e o envelhecer. É tudo tão natural! (traga o cigarro)
- (esvazia o copo) Falando nisso, você tem idéia de quanto gasta uma mulher só para não ficar escrota?
- (solta fumaça) Claro! (apaga o cigarro) Depilação, shampoo especial, condicionador reparador, cremes hidrantates para o cabelo, para as mãos, para o corpo, anti-rugas, manicure, pedicure, cabelereiro...
(bebe um gole e acende outro cigarro)
- Pois é, gasta se uma fortuna...(acena para o garçom trazer mais uma garrafa)
- E com a idade tudo piora. Bom, para todos. Pelo menos inventaram o viagra. (enche os pulmões de fumaça)
- (enche o copo e toma um gole) Bom para você. Para mim ainda não inventaram nada.
- (solta a fumaça) Mas você ainda é nova. Acho que nunca conheci uma lésbica velha.
- Haha, é porque o número de velhinhos gays que nem você é bem maior! (esvazia o copo)


terça-feira, 16 de outubro de 2007

Cinderela

A luz refletiu no rosto do homem e chegou aos olhos dela.
Ao receber aquele estímulo visual, seu cérebro interpretou-o como sendo compatível com os requisitos de beleza guardados em sua memória.
Ele se aproximou dela e começou a conversar.
Agora, além do estímulo visual, havia também o estímulo auditivo, que seu cérebro interpretava como sendo uma voz
masculina muito bela. As mudanças de frequência de sua voz produzia sons diferentes que o cérebro da mulher interpretava como palavras com significados, cujo conteúdo agradava-a muito.
Em breve, haveria o contato físico e os nervos táteis enviariam correntes elétricas ao cérebro, que por sua vez liberaria endorfina na corrente sanguínea e dar-lhe a sensação de prazer.
Não faltaria muito, então, para seu corpo produzir altas quantidades de neurotrofina.
Euforia, suor nas mãos, frio no estômago, aceleração cardíaca, bochechas rosadas, prazer, saudades,
dependência, etc.
Depois, passado um ou dois anos, os níveis de neurotrofina diminuiriam e se dirá que a paixão acabou.
Com sorte, a neurotrofina dará lugar à oxitocina e se dirá que o que ela sente é amor.
Apesar de pensar em tudo isso enquanto conversava com o homem, de lembrar de todas suas desilusões, de passar noites comendo chocolates enquanto falava "homem não presta" para uma amiga no telefone e de afirmar ser uma mulher independente, ela cedia.
Ela cedia, pois sabia que embora todas suas amigas queimassem sutiãs como forma de protesto feminista, nenhuma delas queimariam a história de Cinderela.