segunda-feira, 21 de julho de 2008

O conto da morte do irmão de Charles


Charles estava escovando os dentes quando, a menos de um metro de distância, seu irmão, no box do mesmo banheiro, pisou no sabonete que caíra e bateu a nuca no registro de água, interrompendo a canção sertaneja brega que ele cantava com tanto vigor.
Imediatamente, Charles desatou a rir, cuspindo a espuma da pasta de dente no espelho e nos azulejos.
Foi um espetáculo trágico e cômico, não necessariamente nesta ordem, e Charles, depois de gargalhar por dois minutos ininterruptamente, abriu a cortina translúcida de plástico e entrou da maneira como estava, de cueca e com a escova de dentes na boca, para ver o estado de seu irmão.

Morto.

Sob a luz fria de uma lâmpada fluorescente de 60W, Charles abraçava seu irmão, cujo corpo se encontrava nu e os cabelos, cheios de shampoo. As gotas quentes que caíam do chuveiro se misturavam com suas lágrimas e com a baba branca sabor menta anti-tártaro para dentes sensíveis que escorria de sua boca e desenhavam um trajeto de seu rosto para sua cueca.
Ele morreu assim, pá, repentinamente, sem dor, sem sofrimento, sem últimas palavras, sem proteger alguém de um tiro com o próprio corpo, sem contar seus planos malignos de dominar o mundo, sem declarações de amor, sem revelações bombásticas a respeito de sua sexualidade, sem revelar as coordenadas de um tesouro escondido, sem conselhos sábios ou frases de efeito, enfim, morreu, pá, simples assim.
Não deu seu último suspiro nos braços de seu irmão e já se foi de olhos fechados, sem ao menos lhe dar a oportunidade de fechá-los como nos filmes.


Bom, mas e agora, o que diabos fazer com o corpo?
Seus pais morreram há anos em uma morte tipicamente merecedora de um Darwin Awards, quando, para não dar na vista dos filhos, faziam sexo dentro do carro que estava dentro da garagem com o motor ligado para manter funcionando o ar condicionado e se intoxicaram com monóxido de carbono.
Só havia, portanto, Charles para cuidar do corpo de seu irmão.
Construir uma pirâmide estava defitinivamente fora de cogitação, pois ele não tinha dinheiro para bancar nem ao menos um funeral descente com um caixão descente nem pagar mensalidade de um cemitério particular.

Teria de ser um método barato.
Jogar o cadáver no mar poderia lhe trazer problemas se ele aparecesse boiando na praia de Copacabana, enterrá-lo no jardim não seria possível, uma vez que ele morava em um prédio, e Charles era cagão para métodos de filmes educativos de psicopata ou de gangster.
Depois de muito pensar, Charles chegou à conclusão de que ficar soterrado e sendo comido pelos vermes não era nada agradável, ao contrário da poesia de ser transformado em cinzas e lançado ao mar.
Após alguns dias na churrasqueira emprestada do vizinho, o irmão de Charles foi parar num pote de sorvete como o feijão que sobra do almoço. Na falta de um urna funerária, tinha ainda a vantagem de ser um recipiente hermético.
Charles, então, pegou um ônibus, desceu para o litoral e assim que chegou na rodoviária guardou o pote de sorvete num guarda volumes.
Dali, foi para uma pousadinha descansar.
Abriu o chuveiro, entrou e pá, teve o mesmo fim que seu irmão, porém sem risadas, sem churrasqueira e sem a eternidade num pote de sorvete dentro de um guarda volumes.


Um comentário:

K. disse...

eu achei que ele fosse jogar as cinzas no mar, ou algo assim...