sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Memória de Elefante - 3

 
No jardim de infância, eu estudava numa escolinha alemã.
Lembro de achar tudo enorme, o pátio, as quadras, as professoras, meus pais...
Lembro de alguns coleguinhas, como um menino que se chamava Carlos que ligava quase todo dia para bater papo, uma menina loirinha que se chamava Laila e brincava com os meninos, ao contrário de um ruivo chamado Bruno, que queria ser uma menina e este nome me faz lembrar de outro Bruno, filho único que tinha todos os brinquedos do mundo.
Lembro de uma vez que era aula de alemão e a professora, uma loira de óculos enormes, estava ensinando palavras básicas, das quais eu não lembro uma sequer, como sol, nuvem, chuva, céu, árvore, essas coisas, e tinha uma historinha da qual eu não me esqueço em que a nuvem chorava no céu e então chovia.
Era só uma historinha, mas para mim, um japonesinho de quatro anos bochechudo, desavisado, ingênuo e inocente, acreditei na história com rigor científico, afinal, ensinaram na escola que é lugar de se aprender as coisas, e contei todo feliz quando cheguei em casa que naquele dia ensinaram porque chovia.
Foi quando minha mãe e meu pai contaram que as nuvens não choravam e não eram seres vivos e explicaram o ciclo da água para mim.
Acho que quando se conta a uma criança que Papai Noel não existe, ela deve sentir a mesma coisa que senti naquele momento. Uma tristeza com desilusão com uma sensação de ser gente grande. 
Não chorei e acho que foi a partir de então que comecei a questionar tudo. Acho que é por isso que nunca precisaram me contar que Papai Noel não existe.


Um comentário:

. disse...

oi Kiyoshi! como estão as coisas? por aqui, retornando às aulas na USP, o ano começou!
passei para dar um alô, e de quebra dizer que gostei muito desse texto.