sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Bostejando novamente sobre a FAU



Na análise anterior, ative-me somente a ressaltar a insuperável poética inerente ao Edifício Vilanova Artigas, popularmente conhecido como o prédio da FAU. Peço desculpas àqueles que leram o texto escrito e publicado neste mesmo meio de expressão virtual em março deste ano, mas devo confessar que tal poética me comoveu tanto que, no momento de expressão de minhas impressões sobre tal colosso, acabei deixando que meus sentimentos de profunda admiração me fizessem omitir uma parte importantíssima que também é inerente à construção do modernista que dá nome à sua esplendorosa criação.
Tratando-se de uma faculdade, isto é, um local de ensino, de reflexão, de aprendizado, de amadurecimento, de questionamentos e de críticas, de arquitetura e urbanismo, nada mais didático que o próprio ambiente de formação refletir o objeto de aprendizado e o próprio ensino.
O calouro chega, ainda acostumado com as salas de aula de seu antigo colégio e cursinho, e vê a monumentalidade do edifício. Maravilhado com a plasticidade moderna, ele admira as rampas, os andares em patamares distintos, os espaços abertos, a honestidade do concreto armado. Tudo que o cerca é beleza e perfeição sob a luz do dia transpassando o gigantesco wafer que paira sobre sua cabeça, e a FAU certamente é o lugar mais bonito que há no mundo, com a melhor infra-estrutura e os melhores professores que dão as melhores aulas.
Com o passar do tempo, porém, o aluno, antes recém saído da adolescência, agora encara sua própria maturidade. Com o conteúdo aprendido graças à FAU, mas nem sempre ensinado por ela, com o convívio diário com os colegas, com os docentes e com o próprio edifício, ela aprimora o seu senso crítico, eleva seu nível de exigência e questiona e critica o sistema de ensino, os colegas, os professores e, obviamente, o próprio edifício.
É neste instante, então, que ele descobre o segredo por baixo do concreto armado.
Ele percebe a ilusão e a desilusão. 
Ele descobre a resposta como um arqueiro zen.
No início, havia um grande deslumbramento, uma grande admiração, uma grande expectativa.
Com o passar dos anos, a distância entre biblioteca e xerox, entre cantina e os banheiros sempre distantes que dificultam a vida daqueles cujas necessidades fisiológicas excretais e digestivas são urgentes começam a incomodar cada vez mais.
As rampas de acesso que não permitem cadeirantes circularem sozinhos, o elevador que não chega em todos os andares, a falta de segurança com guarda-corpos inapropriados, os domos de fibra de vidro mal pintados que descascam e deixam a água da chuva passearem pelas salas e aumentam o nível de decibéis para que os docentes parem a aula reprimidos pela natureza, a falta de planejamento acústico das salas de aula e estúdios, o teto de estalactites que pingam um líquido fétido cor de café sobre maquetes, roupas brancas, cabelos recém lavados, impressos caros, telas de notebooks e que se infiltram entre suas teclas, cada detalhe é friamente calculado para que o estudante de arquitetura saiba exatamente o que não fazer.
A FAU não lhe dá as respostas de que caminho seguir, ela dá a liberdade para o aluno traçar seu próprio rumo, apenas alertando-o do que não deve ser feito, e isto se esconde debaixo do concreto armado do prédio, milimetricamente calculado para que um vento gelado sopre nos dias de frio e para que nos dias de calor, não haja circulação de ar.
E os professores também colaboram. Secretamente, alguns deles, por incrível que pareça, os mais odiados pelos graduandos, recebem um treinamento com mestres Jedi dos cantos mais distantes das galáxias inacessíveis, para que eles não dêem o conhecimento de mão beijada. Eles são instruídos a dar uma aula bem ruim, e cobrar resultados humanamente impossíveis, de forma que cada aluno tenha de buscar o conhecimento por conta própria.
Esta é mais uma característica inerente ao glorioso impávido colosso.
O tudo tudificador que potencializa as potencialidades socio-ambientais que permeiam seu interior e seu entorno ensina os caminhos a não seguir para que o aprendiz saiba aonde ir, é a tese e a antítese, o yin e o yang, o equilíbrio do universo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Acho que esse grito não foi contido, rs

. disse...

waffle?? bom!