terça-feira, 17 de março de 2009

Babel


Uma outra lenda que não existe conta que a construção da Torre de Babel começou em uma data incerta, mas sabe-se que ela se deu numa época em que as pessoas se compreendiam e compartilhavam os mesmos desejos. Ao contrário, porém, do que conta a lenda que existe, não é uma edificação para se chegar aos céus e nem ao menos uma torre ela é.

No início, quando os arquitetos pensavam no projeto da Torre de Babel, riscavam rascunhos de altura progressiva em direção ao paraíso, com belas escadas em espirais que se enrolavam numa série de curvas que, ao longe, pareciam uma única reta que apontava para a morada dos deuses.

Uma torre, contudo, era falível e frágil quanto maior era sua altura, e os projetistas, buscando uma construção indestrutível até mesmo para as forças divinas, abandonaram o modelo vertical e chegaram a um modelo arquitetônico perfeito.

A idéia era expandir a construção não para cima apenas, mas para todas as direções possíveis, sem limites.

As escadas em espiral, por sua vez, deram lugar a corredores sinuosos e retos, com paredes de espelho ou de vidro, de maneira que ora deixavam visível o que se escondia atrás do sólido, ora replicavam o transeunte infinitamente, e com bifurcações igualmente sem fim.

Ao cabo de algum tempo, o povo observava sem compreender como aquele labirinto sem saída, que logo cobriria toda a superfície do mundo, poderia levar algum dia ao paraíso.

O que o povo não sabia, todavia, era que as premissas de Babel iam muito além do visível e do tangível.

O babélico projeto do labirinto infinito não era chegar a algum lugar. O intuito era justamente se perder nas bifurcações entre curvas e retas para se encontrar o tempo inteiro em reflexos e reflexões dos corredores espelhados e transparentes, pois o paraíso, descobriram os arquitetos, não era um lugar acima e distante de nossas cabeças. O paraíso era um não lugar que se escondia em todos os lugares de Babel, como um Aleph invertido, uma circunferência cujo centro estava em todos os lugares e que se expandia infinitamente para todos e em todos os sentidos, como o universo curvo de Einstein.



Um comentário:

Kei disse...

Seria legal se o mundo fosse assim.