quinta-feira, 12 de março de 2009

Pandora


Uma lenda que não existe conta que Pandora, do grego Πανδώρα, ou "a que possui todos os dons" ou "a que é o dom de todos os deuses", abriu uma caixa e libertou todas as palavras do mundo.

As palavras, como um quase infinito exército de formigas vorazes, espalharam-se neste mundaréu, entrando em todas as fendas no chão, nas paredes, nos ouvidos, nas mentes, nos olhos, transformando a paisagem por onde passavam para logo em seguida sair das bocas, das mãos, dos olhos, das penas, do giz e do carvão em busca de algo que estava além delas próprias.

Algumas diluiram-se e ficam inertes, como microorganismos invisíveis misturados e flutuantes no ar, esperando que alguém as inalasse para poderem infectar seu hospedeiro e se multiplicarem suficientemente para contaminar outros seres.

Outras fundiram-se com objetos e massas encefálicas, num processo simbiótico tão presente e profundo que passam desapercebidas.

Há, porém, ainda, algumas raras palavras que voam livres em algum jardim escondido, palavras que o homem ainda não descobriu e permanecem selvagens, puras, invisíveis, impronunciáveis, inescrevíveis; palavras cujos sentidos se camuflam entrelinhas.
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3 comentários:

Anônimo disse...

As palavras estão aí para prostituir os sentimentos, o que é real não precisa ser pronunciado para se consolidar.

N. Araujo disse...

"Estou grávido de idéias" já disse Nietzsche uma vez. Algumas se transformam em palavras e outras não.

Kei disse...

Eu perguntei porque nos shampoos (ou xampú, abrasileirando) eles nunca falam sobre a composição do produto!
E, no fundo, com o que lavamos o cabelo, afinal de contas?